REFLEXÃO
É claro que estamos muito satisfeitos com a possibilidade dos perpetradores de crimes contra cães e gatos neste país serem levados à prisão por seus crimes.
Na verdade, contamos com que a letra saia do papel e se cumpra como realidade. E, nas localidades em que ainda não se conseguiu a criação de delegacias especializadas contra crimes contra os animais __ o que infeliz e despudoradamente é o caso aqui do Rio de Janeiro __ ,que sejam criados imediatamente mecanismos operacionais para que as leis sejam efetivadas.
Infelizmente, consultada as leis em vigor no Brasil, sei, por antecipação, que a tão proclamada conquista de penas que variam de 1 a 4 anos de prisão, jamais se concretizarão em tempo de cárcere , quando se tratar de determinar a pena para um determinado criminoso, já julgado. A menos se revogue um dispositivo do atual código penal em que se determina que quando a pena é de 1 a 4 anos (de número 44 ponto alguma coisa), ela será automaticamente convertida em medidas alternativas (pagamento de multas, serviços à comunidade etc.). Quisessem os senhores juristas fazer valer a vontade da população, a pena teria necessariamente que ser determinada como sendo de 2 a 5 anos. Aí sim, veríamos estes criminosos covardes vendo o sol nascer por trás de grades...
Mas disto todos preferem não falar ....
A euforia está por toda parte, até que as pessoas "caiam na real".
Entretanto, e muito além disso, ficam aqui algumas observações.
Ainda não conheço o conteúdo do projeto aprovado pela Comissão de juristas e que passou pelo Congresso Nacional.
Ficam as indagações.
- Como foi definido o conceito de "animal"?
- Tornou-se exclusivo de "animais domésticos"?
- Como ficam TODOS os demais animais?
- Qual passa a ser o tratamento e o entendimento jurídico acerca dos animais explorados e torturados nas vaquejadas e rodeios?
- Deixam de ser "animais"?
Gozam de alguma proteção jurídica, ou ficaram com isso definitivamente excluídos da condição de "animais"?
- Como ficam os animais aprisionados em zoológicos
ou torturados e abusados em circos?
- Qual passa a ser a situação dos animais silvestres?
- No caso da experimentação animal , a nova lei só considera como crime o que for feito a cães e gatos exclusivamente?
E os primatas, porquinhos e outros animais torturados pelos "cientistas" e "professores" nas salas de aula de todo o país? Quem define quando existem ou não métodos substitutivos?
- E os animais hoje ainda considerados "pratos" de comida pelas leis brasileiras?
Perderam com isto a oportunidade e a última esperança de seu óbvio reconhecimento como seres sencientes?
- Pode-se mutilar e ferir um carneiro ou um porquinho, mas não a um cachorro?
- Pode-se fabricar o foie-gras, ou os patos e gansos foram rebaixados a "coisas" inertes e degustáveis?
- Pode-se continuar a matar um bezerrinho de cerca de 5 dias de idade e vendê-lo como "vitela"?
- Como fica a questão do sacrifício de animais?
Passa a ser crime também, ou não?
Poderão continuar a ser oferecidos como "mercadoria ritualística" nos mercadões?
- Como fica o caso dos burros, dos jegues e dos cavalos usados como "tração"?
E os coelhos e chinchillas, podem ser esfolados vivos ainda, para o comércio de suas peles?
- Do ponto de vista do abolicionismo e dos direitos animais, embora eu comemore a proteção oferecida a cães e gatos __ é claro __, nos chamados crimes individuais, praticados por pessoas físicas individualmente __ no caso disto vir a acontecer, repito __, lastimo e me preocupa muitíssimo com o que, em contrapartida, foi retirado dos demais animais.
Terá sido definitivamente decretada a sua coisificação?
E a oficialização de sua exploração?
Foi institucionalizado um sub-especismo (um especismo interno ao especismo original?)
É inegável que quando se recorta e privilegia uma fatia de uma única realidade, uma outra é imediata e inexoravelmente deixada de lado e excluída daquele conjunto de "considerações".
Norah André
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domingo, 27 de maio de 2012
Tristes indagações
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quinta-feira, 22 de março de 2012
Eunucos versus ativismo pelos direitos animais
Quando o "menos" na verdade é "mais"
Norah
A maioria de nós sabe o que quer dizer "eunuco".
Um sujeito de quem se rouba a virilidade e a energia, por ser considerado uma "ameaça", arrancando-lhe o que tipifica a sua masculinidade.
Na História, muitos foram os casos em que homens tiveram seus testículos arrancados por orquidectomia, para que sua convivência com mulheres nas cortes fosse considerada "segura".
Independentemente de tais barbaridades, sexualmente orientadas, há diversos sentidos simbólicos possíveis de tornar algo ou alguém um "eunuco", na tentativa de domesticá-lo ou fazer calar a ENERGIA de um ideal.
A todas as grandes CAUSAS foi dado "tratamento" semelhante.
Uma das estratégias mais recorrentes de silenciá-los e fazê-las perder o seu vigor é o estabelecimento de "alianças" que só lhe retiram a ALMA e a CHAMA.
Pessoas com ideais distintos __ como certamente é o caso do abolicionismo e do bem estarismo __ deveriam estar precavidas. Ao discursar sobre a "união", muitos são levados a crer que "devagarzinho", obtendo "apoios" e estabelecendo "coligações" (à moda do que os políticos fazem tão bem), estando presentes na mídia, obtendo apoios externos sem antes se verificar as reais intenções de alguém, estamos fazendo "progressos" e progredindo em direção à Libertação Animal e ao estabelecimento de uma ampla plataforma de ativismo em benefício do reconhecimento dos direitos animais.
ENGANO.
Se eu, abolicionsta, me convenio e me associo a falas mansas e castradas, que na verdade escondem interesses humanos na exploração animal, estou caindo no famoso "conto do vigário", aplicado aos ingênuos que continuam vendo o mundo com base em sua boa fé e confiança irrestrita na "bondade" do meu semelhante.
"Devargazinho" não se chega a lugar algum.
Ou portamos a CHAMA da Libertação Animal, ou não.
Ou formamos um grupo coeso, com intenções idênticas, ou estamos abrigando o inimigo que nos enfraquecerá.
Com toda certeza, este discurso não é "popular", já que com ele costumamos fazer mais inimigos do que amigos. Muitas pessoas com DE FATO excelentes intenções, recolheram-se por ter contatado que este tipo de associação traz muita dore de cabeça. Não é diferente o que disse Sergio Greif em seu último artigo postado em nosso blog.
Entretanto, firmemente acredito que SÓ este caminho nos conduzirá até o que pretendemos ver realizado. E terremos a grande vantagem de não precisar ficar olhando eternamente olhando para trás, verificando os passos de nossos supostos "aliados".
Toda e qualquer institucionalização ou ajuntamento de organizações traz o risco da DESVIRILIZAÇÃO e do encampamento de interesses "estranhos" à causa abolicionista, bem como de qualquer causa legítima.
Neste exato momento estamos OUVINDO o SILÊNCIO de uma ong nacional em relação aos destinos dos jegues do nordeste brasileiro.
Estamos igualmente ouvindo a OMISSÃO de políticos que supostamente deveriam trabalhar por seu "bem-estar".
Não à tôa desconfiamos de qualquer um que se apresente como "político", mesmo correndo o risco de estarmos enganados, CASO se prove o contrário.
Neste caso, como na maioria das situações em nossas vidas adultas, desconfiar é uma NECESSIDADE e uma OBRIGAÇÃO de qualquer um que DE FATO tenha decidido erguer a bandeira dos direitos DOS ANIMAIS.
Prefiro ser acusada de excesso de zelo do que de de cumplicidade com o enfraquecimento da CAUSA.
Há momentos em que o "menos" com certeza é "mais", do ponto de vista da CHAMA que se pretende manter acesa.
"Seja manso como um cordeiro e esperto como uma serpente", já dizia o Mestre.
terça-feira, 20 de março de 2012
Vivissecção: o lado especista da ciência
Por Colaboradores do Libertação Animal Brasília
Postado por
Libertação Animal
Texto escrito por colaboradores que estão envolvidos na organização da nossa manifestação de abril na capital federal
Vivissecção: o lado especista da ciência
A vivissecção, entendida como a prática de se realizar intervenções em animais não humanos vivos ou recém-abatidos com propósitos científicos, costuma englobar uma série de procedimentos que consistem em provocar danos ao corpo desses seres, tais como queimaduras, congelamentos, cirurgias não-terapêuticas, indução de doenças ou danos intencionais em seres sadios, além de experiências psicológicas, teste com drogas etc.
O argumento utilizado por uma parcela considerável de pessoas interessadas em justificar esta prática, não apenas no meio acadêmico, mas também nas pesquisas biométicas, nos testes de produtos de limpeza e em cosméticos, é de que existe a necessidade de se confirmar as possíveis reações e os impactos que certos produtos de uso humano podem causar na saúde dos seres humanos.
Estimativas oficiais indicam que entre 17 e 70 milhões de animais são usados em experimentações somente nos EUA, que detêm em seu território um dos maiores “produtores” de animais para laboratórios: Charles River Breeding Laboratories (CRBL), em Massachusetts, de propriedade da Bausch & Lomb, donos de mais 40% desse mercado. No Brasil não é muito diferente. Os dados não são precisos, porém, estima-se que são milhares, número que possivelmente aumentará independente do quão avancem as leis que rogam por um tratamento “humanizado” visando a diminuição da dor causada pelos procedimentos adotados. Animais continuam sendo mortos como alternativa mais barata para testes, cujos resultados finais não são confiáveis.
Nas últimas décadas, o movimento de defesa dos direitos animais passou a mostrar e denunciar o que muitas pessoas sequer imaginavam que ocorria nos laboratórios de pesquisa e nas salas de aula. Em nome do ensino e do dito “progresso” das técnicas institucionais cientificas, da qualidade de vida baseada em novos e milagrosos produtos farmacêuticos, da estética visual e do movediço campo de combate e cura de doenças, o sofrimento imposto a bilhões de animais não humanos, antes ignorado pela maioria das pessoas, passou a chocar – e muito, quem quer que tomasse conhecimento do que ocorre dentro dos laboratórios.
Diante dessas denúncias, muitas vezes incômodas e fortemente criticadas em razão da exposição a que universidades e laboratórios são submetidos, a sociedade também se viu motivada a entrar no debate sobre vivisseção e experimentação em animais. Não apenas opinando, mas também pressionando e cobrando a substituição dessas práticas. Este esforço não tem sido em vão e, juntamente com uma parcela de cientistas e acadêmicos que também se utilizam de sólidos argumentos que desmontam este já ultrapassado modelo de pesquisa, estão conseguindo promover importantes e consideráveis mudanças no campo científico.
Neste sentido, várias conquistas podem ser citadas ou encontradas mediante pesquisas em ferramentas de busca disponíveis na internet. Como exemplo, é possível mencionar o anúncio feito em 2010 pelo Comitê de Médicos pela Medicina Responsável (PCRM, na sigla em inglês) sobre o fim do uso de animais nos testes laboratoriais das universidades do Canadá . As faculdades de medicina daquele país agora utilizam métodos alternativos, tais como simuladores humanos, em seus laboratórios. Também em Israel, El Al (principal linha aérea israelenses) assumiu publicamente que se recusa a transportar primatas para serem usados em experiências. Além disso, lá, a vivissecção é proibida em todas as instituições federais de ensino.
Nós também temos um papel importante nesta luta pelo fim do sofrimento animal. Como indivíduos críticos de nosso próprio consumo, somos capazes de renegar esse tipo de lógica de produção pelo boicote direto e uso de produtos alternativos, ao mesmo tempo que pressionamos as devidas autoridades (legais e corporativas) para que abandonem essa metodologia visando uma ética diferenciada que exclua o uso de animais nesses procedimentos. Do contrário, como consumidores desinformados, estaremos subordinados a sempre recompensar esse ciclo de dor em cada produto que compramos e trazemos para nosso cotidiano.
Postado por
Libertação Animal
Texto escrito por colaboradores que estão envolvidos na organização da nossa manifestação de abril na capital federal
Vivissecção: o lado especista da ciência
A vivissecção, entendida como a prática de se realizar intervenções em animais não humanos vivos ou recém-abatidos com propósitos científicos, costuma englobar uma série de procedimentos que consistem em provocar danos ao corpo desses seres, tais como queimaduras, congelamentos, cirurgias não-terapêuticas, indução de doenças ou danos intencionais em seres sadios, além de experiências psicológicas, teste com drogas etc.
O argumento utilizado por uma parcela considerável de pessoas interessadas em justificar esta prática, não apenas no meio acadêmico, mas também nas pesquisas biométicas, nos testes de produtos de limpeza e em cosméticos, é de que existe a necessidade de se confirmar as possíveis reações e os impactos que certos produtos de uso humano podem causar na saúde dos seres humanos.
Estimativas oficiais indicam que entre 17 e 70 milhões de animais são usados em experimentações somente nos EUA, que detêm em seu território um dos maiores “produtores” de animais para laboratórios: Charles River Breeding Laboratories (CRBL), em Massachusetts, de propriedade da Bausch & Lomb, donos de mais 40% desse mercado. No Brasil não é muito diferente. Os dados não são precisos, porém, estima-se que são milhares, número que possivelmente aumentará independente do quão avancem as leis que rogam por um tratamento “humanizado” visando a diminuição da dor causada pelos procedimentos adotados. Animais continuam sendo mortos como alternativa mais barata para testes, cujos resultados finais não são confiáveis.
Nas últimas décadas, o movimento de defesa dos direitos animais passou a mostrar e denunciar o que muitas pessoas sequer imaginavam que ocorria nos laboratórios de pesquisa e nas salas de aula. Em nome do ensino e do dito “progresso” das técnicas institucionais cientificas, da qualidade de vida baseada em novos e milagrosos produtos farmacêuticos, da estética visual e do movediço campo de combate e cura de doenças, o sofrimento imposto a bilhões de animais não humanos, antes ignorado pela maioria das pessoas, passou a chocar – e muito, quem quer que tomasse conhecimento do que ocorre dentro dos laboratórios.
Diante dessas denúncias, muitas vezes incômodas e fortemente criticadas em razão da exposição a que universidades e laboratórios são submetidos, a sociedade também se viu motivada a entrar no debate sobre vivisseção e experimentação em animais. Não apenas opinando, mas também pressionando e cobrando a substituição dessas práticas. Este esforço não tem sido em vão e, juntamente com uma parcela de cientistas e acadêmicos que também se utilizam de sólidos argumentos que desmontam este já ultrapassado modelo de pesquisa, estão conseguindo promover importantes e consideráveis mudanças no campo científico.
Neste sentido, várias conquistas podem ser citadas ou encontradas mediante pesquisas em ferramentas de busca disponíveis na internet. Como exemplo, é possível mencionar o anúncio feito em 2010 pelo Comitê de Médicos pela Medicina Responsável (PCRM, na sigla em inglês) sobre o fim do uso de animais nos testes laboratoriais das universidades do Canadá . As faculdades de medicina daquele país agora utilizam métodos alternativos, tais como simuladores humanos, em seus laboratórios. Também em Israel, El Al (principal linha aérea israelenses) assumiu publicamente que se recusa a transportar primatas para serem usados em experiências. Além disso, lá, a vivissecção é proibida em todas as instituições federais de ensino.
Nós também temos um papel importante nesta luta pelo fim do sofrimento animal. Como indivíduos críticos de nosso próprio consumo, somos capazes de renegar esse tipo de lógica de produção pelo boicote direto e uso de produtos alternativos, ao mesmo tempo que pressionamos as devidas autoridades (legais e corporativas) para que abandonem essa metodologia visando uma ética diferenciada que exclua o uso de animais nesses procedimentos. Do contrário, como consumidores desinformados, estaremos subordinados a sempre recompensar esse ciclo de dor em cada produto que compramos e trazemos para nosso cotidiano.
domingo, 18 de março de 2012
Direitos animais e o caminho a seguir - Sergio Greif
"Por ocasião do 1º Encontro Nacional de Direitos Animais (ENDA), ocorrido em Porangaba - SP, entre os dias 1º e 4º de maio de 2008, tive a oportunidade de proferir 4 palestras sobre temas diversos. Duas dessas palestras tratavam de aspectos relacionados ao posicionamento ideológico daqueles que lutam pelos direitos dos animais, sendo uma referente ao dito "movimento abolicionista" e a segunda uma tentativa de estabelecer de que forma se daria o ativismo pelos direitos animais no futuro. O artigo que se segue refere-se a essas duas apresentações realizadas."
Sergio Greif
Direitos animais e o caminho a seguir
Sergio Greif
Vem ganhando popularidade em nosso meio as alusões e referências a um tal "abolicionismo animal". Mais e mais pessoas vem se auto-denominando abolicionistas, escrevendo mensagens de e-mail destinadas aos "Prezados Abolicionistas" (independente de quem sejam os destinatários) e se despedindo em suas mensagens com "abraços abolicionistas". Abolicionismo parece ser a nova palavra da moda, seja lá o que ela queira dizer para a maioria das pessoas.
Embora "abolicionismo animal" seja uma terminologia popularizada relativamente em tempos recentes, a idéia que ela encerra não é de forma alguma nova. Abolicionistas não inventaram nada que já não se soubesse; essa não é uma nova seita, sem um passado, e que surgiu para acabar com tudo o que se tinha até então, como querem fazer parecer muitos "protetores de animais das antigas". Se hoje o termo abolicionismo é necessário, se foi preciso "inventar" uma palavra, foi porque as antigas terminologias - direitos animais, proteção animal, defesa animal - ou qualquer outra que tenha vindo a ser utilizada, foram corrompidas pelo desgaste e mau uso.
Se pessoas que reproduzem animais, criam-nos para seus fins, fazem uso de sua carne, couro ou outras partes, etc. - se pessoas, enfim, que não possuem nenhum compromisso para com a vida animal repentinamente passam a se autodenominar "protetores de animais", "defensores de animais", etc., então é certo que as pessoas que realmente protegem e defendem animais, que lutam por seus direitos, precisarão adotar uma outra denominação. Se muitas pessoas entendem que lutar pelos direitos animais significa lutar para que as galinhas tenham jaulas maiores ou para que o vitelo possa deitar em um cocho um pouco mais largo, esticando as pernas, então de fato entendemos porque da necessidade de se criar uma nova palavra. Assim popularizou-se o termo "abolicionismo".
Mas essa popularização, quando não seguida de uma definição clara e amplamente entendida e aceita, pode ser algo ruim. Basta analisarmos a forma como muitos auto-denominados abolicionistas levam a vida ou se embrenham no seu ativismo para vermos que o abolicionismo de agora nada tem a ver com o que devíamos entender por abolicionismo, e que ele muito mais se aproxima da proteção animais outrora criticada. Aliás, é óbvio que apenas se autodenominar abolicionista sem seguir a isso uma critica ao bem-estarismo é uma colocação vazia. Não há porque utilizar essa palavra senão em oposição ao movimento tal qual existia e existe até hoje.
Abolicionismo nada mais é do que direitos animais. Não há nada somado, não há nada subtraído. Direitos animais em sua forma mais pura.* Não é novo porque o conceito estava lá desde o começo. Se reconhecemos que animais possuem direitos e que esses direitos são inalienáveis então não podemos utilizar animais como meios para nossos fins. O conceito é simples, não há mais o que se argumentar sobre isso. Mas tudo o que é diferente disso, ainda que parecido para os menos avisados, não é mais direitos animais.
No meu entender, visto o mau uso do termo abolicionismo, caminhamos para a eleição de uma nova palavra para definir a forma como pensamos. Direitos animais já foi bom, mas foi corrompido, abolicionismo já começou com um emprego ruim... que palavra virá agora? Minha opinião é que deixemos de neologismos, deixemos o abolicionismo de lado e nos voltemos novamente para os direitos animais, mais lógico e explicativo. Com o perdão das palavras, mas para o inferno os protetores de animais, falsos defensores de animais - se eles comem frango ou apoiam o uso "ético" de animais em pesquisa, eles não defendem nada senão seus próprios interesses. Sou pelos direitos animais e só me denomino abolicionista quando preciso fazer uma crítica específica ao bem-estarismo.
O ideal abolicionista não é novo, nem saiu do movimento de defesa animal, como muitas vezes colocado pelos críticos. Estiveram ambos os movimentos engendrados um ao outro desde o começo, atrapalhando-se e confundindo-se mutuamente. A cisão que surgiu recentemente não veio para enfraquecer, mas para fortalecer cada movimento em suas opiniões, cada qual em sua maneira de agir. E as diferenças são tantas que ambos os grupos chegam a ser opostos, embora por um ponto de vista bastante superficial, ambos lutem pela mesma coisa.
Entender a evolução deste movimento é entender seu próprio funcionamento. Não pretendo aqui escrever muito mais do que já foi escrito sobre essa evolução. Outros artigos nessa mesma publicação o fazem muito melhor. Mas como uma rápida retrospectiva dos fatos, precisamos entender que, no mundo ocidental, grande parte do pensamento humano com relação aos animais baseou-se na passagem de Gênesis 1:28 "E Deus os abençoou (Adão e Eva), e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.". Essa passagem, invocada em praticamente toda discussão referente aos direitos animais, predominou no pensamento humano durante as Idades Antiga, Média e Moderna.
Mesmo atualmente ainda há quem a use para justificar o direito do homem sobre as demais espécies, o que de fato atesta contra a racionalidade do argumentador, visto que outras passagens bíblicas autorizam a escravidão, o saque, o estupro, etc (para mais informações sobre esse tópico leia o ensaio "O bem-estarismo e a Bíblia" - www.anima.org.ar/libertacao/animais/o-bem-estraismo-e-a-biblia.html). Note-se que muitas vezes quem utiliza tal argumento sequer conhece ou segue a Bíblia. Apenas a utiliza para defender um ponto de vista que serve aos seus interesses.
A defesa da idéia de que animais são meros recursos a serviço dos seres humanos atingiu seu ápice com René Descartes, que em 1637 defendia que os corpos eram apenas máquinas, autômatos. Embora Descartes tentasse ser perfeitamente racional em sua argumentação, ou como mais tarde popularizou-se dizer - Cartesiano - sua lógica não estava desvencilhada do pensamento da época. O homem é também máquina visto que possui corpo, mas possuindo também alma e pensamento, torna-se sujeito de direito. Animais não possuíam alma nem pensavam, pelo menos esse era o pensamento da época, logo, não eram mais do que robôs. E robôs podem ser usados para qualquer coisa, inclusive destruídos sem qualquer justificativa.
O Iluminismo surgiu como uma crítica a diversos pressupostos religiosos, entre os quais a idéia de que animais não possuíam alma ou não raciocinavam. Jean-Jacques Rousseau em 1755 defendia que os animais possuem sim sentimentos, e que por isso não devem ser "desnecessariamente mal tratados". Vemos aqui que Rousseau não chega a realizar uma defesa verdadeira aos direitos animais. Ele reconhece que animais sofrem e que, portanto, é moralmente errado fazê-los sofrer. Mas se ele cita o "sofrimento desnecessário" é porque pressupõe a existência do "sofrimento necessário". Embora referido como vegetariano pelas sociedades vegetarianas pelo mundo afora, Rosseau jamais foi vegetariano nem se posicionou contra qualquer uso de animais. Apenas sugeria que houvesse maior critério nesse uso.
Outro iluminista, Voltaire, em 1764 fez críticas mais específicas às colocações de Descartes, defendendo que animais pensam e tem sentimentos. Embora defendesse isso, acreditava que tínhamos o direito de usar animais, ao mesmo tempo que tínhamos obrigação de defendê-los. Esse antagonismo, um contra-senso, é o cenário que ainda encontramos no movimento de "proteção animal". Protetores de animais até hoje defendem essa mesma idéia, a de que podemos utilizar animais para nossos fins, mas temos obrigação de defendê-los.
Immanuel Kant, outro filósofo iluminista bastante prolífico, defendia em 1781 que o ser humano devia se abster de maltratar animais porque o homem que se acostumava com o sofrimento animal mais facilmente se tornava indiferente ao sofrimento humano. Na opinião de Kant os animais em si não gozavam de direitos, nem o sistema moral que devia ser aplicado a todos os homens deveria ser estendido aos animais. Apenas devíamos nos compadecer dos animais porque assim nos compadeceríamos do próprio ser humano.
O filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham, maior representante da ideologia utilitarista, escreveu em seu livro de 1789 An Introduction to the Principles of Morals and Legislation: "Pode um dia vir a ser reconhecido que o número de pernas, a vilosidade da pele, ou a terminação do osso sacro são razões igualmente insuficientes para abandonar um ser senciente à mesma sorte.
O que mais seria isso que poderia traçar a linha insuperável? É a faculdade da razão ou talvez a faculdade do discurso? Mas um cavalo ou um cão bem crescidos são sem comparação mais racionais, bem como mais comunicativos, do que um bebê de um dia ou de uma semana ou mesmo de um mês de vida. Mas suponhamos que eles fossem de outra maneira, o que isso valeria? A questão não é, Eles pensam?, nem Eles falam? Mas, Eles sofrem?"
Muitos se referem a essa passagem de Jeremy Bentham como o início do pensamento com respeito aos direitos animais, mas costumo vê-la como apenas mais um degrau em direção a esse pensamento. Bentham não era ele mesmo um vegano, e embora fosse opositor da escravidão humana, acreditava que animais podiam ser escravizados. A contribuição verdadeira de Bentham não foi com relação aos direitos animais, mas sim em reconhecer que animais possuíam interesses iguais aos do homem no que se refere à capacidade de sofrer e sentir dor.
Embora seus escritos sejam referidos como tendo dado início ao movimento de direitos animais, sua influência foi mais forte dentro do movimento de bem-estar animal. Por influência de Bentham, em 1822 foi promulgada a primeira lei de bem-estar animal da história, a British Anti Cruelty Act, que pretendia prevenir a crueldade contra os animais habitualmente utilizados pelo homem. A lei em nenhum momento questionava se animais devem ser utilizados, apenas estabelecia que uma vez que seu uso existe, os animais deveriam ser tratados seguindo princípios não-cruéis. Essa lei não era extensiva a todas as espécies animais, mas aplicável apenas a animais domésticos de grande porte.
Em 1824 foi fundada, também na Inglaterra, a Society for the Prevention of Cruelty to Animals - SPCA, rebatizada em 1840 de Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals. Esses dois eventos servem de marco histórico para o bem-estarismo enquanto movimento, e embora em determinados aspectos isso tenha influenciado o movimento pelos direitos animais, não se pode considerar que o reconhecimento de que animais que devem ser utilizados pelo homem merecem alguma consideração devido à sua capacidade de sentir dor seja um passo em direção ao reconhecimento de que animais não devem ser utilizados pelo homem.
O bem-estarismo, compatível com a filosofia utilitarista, difere da filosofia dos direitos animais em tantos aspectos que apenas por ignorância ou superficialidade as pessoas podem confundi-los. Como nos direitos animais, o bem-estarismo também reconhece que animais são seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor e sofrer. Mas as semelhanças acabam por aqui, pois com essa informação em mãos, ambos os grupos tomam caminhos opostos.*
- Bem-estaristas reconhecem que animais podem sentir dor, logo, não devem jamais sofrer desnecessariamente. Mas, quando o sofrimento for necessário, animais podem ser usados. Bem-estaristas crêem que existem formas éticas de utilização de animais, a que chamam de "tratamento humanitário", onde alega-se que o sofrimento é minimizado. Bem-estaristas defendem que a prevenção da crueldade contra animais deve ser regulamentada por leis.
- Os defensores dos direitos animais, como os bem-estaristas, reconhecem que animais são seres sencientes. Exatamente essa senciência lhes torna sujeitos de direito. Animais têm interesse em não sofrer, em não sentir dor, em continuarem vivos. Portanto, fazê-los sofrer ou matá-los é moralmente errado. Animais não devem ser vistos como recursos, como meios para nossos fins, e independente do valor que o ser humano lhes atribua, animais possuem um valor inerente que não pode ser expresso em termos monetários ou negociados de alguma maneira.
A diferença fundamental entre bem-estaristas e defensores dos direitos animais é que os primeiros não se opõe ao uso de animais e apenas lutam pela sua regulamentação, enquanto que os segundos querem abolir toda forma de exploração animal. São movimentos que trabalham por causas opostas, pois regulamentar determinado uso significa torná-lo aceitável, mais longe de ser abolido.* Apesar disso, ambos os movimentos se confundem entre si, gerando por vezes atritos e desavenças.
O filósofo australiano Peter Singer, discípulo de Bentham, é muitas vezes referido como pai do movimento de direitos animais. Embora seu livro Animal Liberation, de 1974, tenha popularizado a idéia de que animais sofrem, em nenhum momento Singer nele defende que não devemos utilizar animais. O nome "Libertação Animal", do título, não condiz com o conteúdo do livro. Singer tem um posicionamento utilitarista, onde o prazer deve ser maximizado e o sofrimento minimizado, tanto para os homens quanto para animais. Ele também tem uma argumentação coerente no que se refere ao princípio da igualdade entre espécies. Mas, por outro lado, ele também defende que vidas - humanas ou animais - podem ser negociadas em troca de "um bem maior".
Na concepção de Singer, animais podem ser usados desde que isso beneficie a um grande número de animais ou de seres humanos. A vida e o direito individual não têm aqui valor, indivíduos podem ser sacrificados pelo bem da coletividade. Singer reconhece que animais tem interesse em não sentir dor, mas não tem interesse na vida e na existência continuada. Assim, não há nada de errado em matar um animal, o errado está em fazê-lo sofrer. Singer não defende o veganismo, mas sim um "onívorismo consciente", onde os produtos de origem animal sejam oriundos de sistemas de criação que dêem aos animais "tratamento humanitário". Defendendo idéias referentes ao bem-estar de animais de criação, Singer não reconhece que animais tem direitos.
O bem-estarismo falha em sua alegada missão de proteger animais em diversos aspectos, especialmente por:
- supor que em algum momento a exploração de animais pode ser eticamente justificada;
- supor que o julgamento humano de fato pode contrapor os interesses de animais (propriedades) e humanos (proprietários) com justiça;
- permitir que o "sofrimento necessário" imposto aos animais seja, na prática, todo uso que se queira fazer do animal;
- supor que leis anti-crueldade de fato protegem os animais ou previnem abusos sendo que elas sequer tipificam o que sejam crueldades ou abusos;
O bem-estarismo em verdade conduz a um lugar bastante diverso do que se desejaria para os animais. Promovendo o consumo de produtos de origem animal do tipo carne de boi orgânico, frango caipira, leite de "vaquinhas felizes", etc. o bem-estarismo cria uma sensação de conforto com relação à exploração animal. O erro não está na exploração de animais, mas na forma como o fazemos. Pessoas deixam de se tornarem veganas para consumir esses produtos mais caros e valorizados, mas que na praticam não são sequer resultados de sistemas de exploração menos sofríveis para os animais. O manejo valorizado pelo bem-estarismo, além de resultar em melhoria na produção pecuária, apenas elimina o sofrimento inútil do sistema de criação. O "sofrimento útil", que se converte em dinheiro para criador, é mantido, até porque ele é inerente a essa atividade.*
E porque valoriza a exploração animal, o bem-estarismo tem como ícones de seu movimento indivíduos e organizações que se destacam explorando animais, desde que adotando a mesma ótica de minimização do sofrimento "desnecessário" e otimização do manejo. Por esse motivo organizações de bem-estar animal tendem a premiar cadeias de lanchonete que se comprometem em usar hambúrgueres de vacas que sofreram menos pra morrer, ou cientistas que se comprometem em reduzir o número de animais usados em seus laboratórios, ou refinar a técnica de modo a diminuir significativamente seu sofrimento. O bem-estarismo não cogita uma campanha de eliminação dessas formas de exploração animal porque eles mesmos se beneficiam desse uso. O bem-estarismo tem, enfim, objetivos diferentes dos direitos animais, e não faz sentido defender que a adoção de uma estratégia bem-estarista levará a abolição do uso de animais. Nós chegamos aonde estamos tentando ir.
Embora a concepção de direitos animais seja antiga, podendo remontar ao século XVII (para mais detalhes, ler O homem e o mundo natural, de Keith Thomas), sua caracterização enquanto movimento distinto do de bem-estar animal só tomou forma mediante os escritos de Tom Regan e Gary Francione. O processo ainda está em curso e depende das pessoas envolvidas reconhecerem que as diferenças existem e que as distinções são necessárias.
O movimento de direitos animais caracteriza-se pelo reconhecimento de que animais possuem os mesmos direitos que o ser humano à vida, e que esses direitos não podem ser negociados. Animais têm interesse na vida e existência continuada e jamais devem ser usados como recursos, ainda que se provem benefícios para o ser humano ou para maior número de animais.
Considerando tudo isso, o veganismo não é apenas uma escolha individual, mas uma obrigação moral de todo ser humano. Não é concebível que uma pessoa que diga defender animais não seja vegana visto que o veganismo é o primeiro estágio que o indivíduo deve buscar após reconhecer que animais possuem direitos. Uma pessoa que difunde direitos animais sem antes haver adotado o veganismo age de forma desonesta, pois pretende ensinar sem antes haver aprendido, e propõe que os outros façam o que ela mesma não se comprometeu a fazer. O veganismo não é um mero detalhe na vida do indivíduo, ele é fundamental para se entender de que forma que a pessoa realmente se compromete com os direitos animais. Veganismo é direitos animais em ação.
Dito isso, entendemos o porquê do movimento de bem-estar ser mais popular que o movimento de direitos animais. O "bem-estar" não exige nada do indivíduo, basta reconhecer que animais sofrem. E nem é necessário reconhecer que todos os animais sofrem, basta que sejam aqueles que nos são mais simpáticos. Basta empunharmos cartazes e gritarmos palavras de ordem. Basta dizermos que gostamos de animais. Não é necessário, realmente, mudar nada em nossas vidas para que sejamos "protetores de animais".
Por outro lado, reconhecer que animais possuem direitos exige que transformemos nossas vidas, que façamos algo a respeito. E fazendo isso, levantamos muitas críticas daqueles que não querem assumir os mesmos compromissos. Muitos não negam que animais têm direitos, mas preferem defender que assumir que não devamos utilizá-los seja uma posição utópica. Que a sociedade não está ainda preparada para isso e que a adoção do veganismo é uma atitude extrema, radical. Defendem que quem quiser adotar o veganismo pode fazê-lo, mas que o veganismo não é para todos, e que as pessoas podem optar por continuar fazendo uso de animais.
Enfim, acreditam que animais têm interesse em não sofrer, mas não que eles tenham interesses na vida continuada. Que basta que animais morram sem sofrimento para que sua exploração seja considerada ética. Defendem ainda que aqueles que lutam pelos direitos animais colocam seu ativismo como uma questão de "tudo ou nada", ou seja, que não acreditam que pequenos ganhos pela causa. Essa crítica é bastante infundamentada, até porque ela surge toda vez que bem-estaristas recebem criticas por estarem promovendo legislações que não representam pequenos ganhos pela causa, mas sim regulamentações de uso de animais.
Outra crítica infundamentada muitas vezes recebida é a de que animais não têm direitos porque direitos pressupõem deveres perante um Estado. Ora, se assim o fosse, bebês e deficientes mentais não gozariam de direitos, visto que não possuem deveres para com o Estado. Ademais, o que se busca para os animais não é "proteção" da forma como é colocada pelos "protetores de animais", nem o direito ao voto, nem qualquer reconhecimento de cidadania. Direitos animais referem-se aos direitos à vida, à existência sem sofrimento e livre do subjugo humano. Não há porque exigir dos animais qualquer obrigação para com o Estado.
Entendidas as diferenças entre ambos os movimentos, resta-nos entender de que forma cada qual deve buscar seus objetivos. Vimos que o movimento de bem-estar animal tem uma forma de atuação que privilegia a premiação de indivíduos e organizações que se comprometem em explorar animais fazendo uso de "métodos humanitários". Vimos também que esse movimento busca a elaboração de legislações que estabeleçam de que forma animais podem e de que forma animais não podem sofrer. Outras formas de ativismo, em verdade ‘demonstrações de que existimos' podem ser enumeradas, entre elas protestos, performances de rua, divulgação de materiais, organização de abaixo-assinados, etc.
Convém que o movimento de direitos animais, enquanto movimento distinto do movimento de bem-estar animal, não tome parte dessas ações, ou quando o fizer, que o seja de maneira bem criteriosa. Creio que a palavra critério seja fundamental para a compreensão de todo o texto que se segue. Comecei o presente texto com uma crítica à popularização e mau uso do termo abolicionismo, porque mesmo quando adotados por veganos sinceros, seu emprego em um contexto bem-estarista acaba por corromper a palavra em sua pureza. Ativistas pelos direitos animais devem ver com reservas toda ação promovida pelos grupos de bem-estar animal. Devem ser criteriosos na escolha daquilo que apoiamos, aquilo a que somos indiferentes, e aquilo que merece nossas críticas.
Nesse 1º ENDA foi pedido que eu falasse sobre o caminho que o ativismo pelos direitos animais deveria tomar no futuro. Não sou dado a previsões, mas posso analisar criticamente o movimento no presente e tentar esboçar um movimento ideal no futuro. Certamente o que mais me incomoda no movimento presente é a falta de critério. Uma boa demonstração de falta de critério é a quantidade de e-mails inúteis referentes ao tema que recebemos diariamente. Sob a pretensão de estar ajudando animais, ativistas fazem circular tudo o que recebem. É óbvio que muito desse material é repassado sem uma leitura prévia, pois não se encontra nele nenhum objetivo prático. Também o texto nem sempre condiz com aquilo que acreditamos. É material ruim e até contrário à nossa ideologia, mas porque dele constam palavras chaves - direitos animais, proteção animal, etc. - ele simplesmente chega ás nossas caixas. Falta de critério dos ativistas.
A falta de critério também se torna evidente quando consideramos o grande número de atividades que se desenvolvem sob o pretexto de ‘direitos animais'. Embora o número seja relativamente grande, considerando o número de ativistas, faltam a essas atividades objetivos claros, foco, organização, enfim, são atividades sem propósito que apenas consomem tempo e energia dos ativistas.
Baseado nessas considerações supus que ‘falta de critério' seja o maior problema do ativismo do presente e que ‘mais critério' seja o que devemos buscar para o ativismo do futuro. Existem 5 perguntas que as organizações sempre devem se fazer para otimizar suas ações. Creio que movimentos e indivíduos envolvidos com direitos animais, para trabalhar com maior critério, devam sempre se fazer essas perguntas, também. São elas: Qual? Como? Quem? Onde? e Quando?
Qual? - "Qual o objetivo de determinada atividade? Quais atividades realmente merecem nossa atenção e a quais devemos ser indiferentes?" A pergunta qual? é importante para o ativista, pois impede que ele se envolva com atividades que não resultem em nada ou que resultem em algo que não seja seu objetivo. Algumas vezes me envolvi em campanhas sem realizar os devidos questionamentos e só então percebi que os objetivos de alguns dos participantes eram distintos dos meus. Outras vezes não havia objetivo algum, apenas o dispêndio de tempo e energia. Poucas pessoas gozam o privilégio do tempo e energia ilimitados. Para aqueles que trabalham, que possuem relações sociais, família, etc, as ações precisam resultar em algo, caso contrário serão ações vazias. Tudo o que fazemos tem que fazer sentido. Não adianta atirar para todos os lados, envolver-se com toda ação proposta, é hora de parar e se concentrar. Quais atividades de fato merecem nossa atenção?
Como? - "Como devo agir?" "Como vou atingir meu objetivo?" A pergunta Como? é importante porque muitas vezes as atividades propostas tem um objetivo claro, mas as ações pretendidas não são compatíveis com esses objetivos ou os efeitos que delas podem advir potencialmente produzirão resultados não desejáveis. Mais adiante realizaremos uma análise critica dessas formas de atuação.
Quem? - "Quem podemos chamar para fazer parte de nossas atividades ou de nosso grupo?" A pergunta Quem? é bastante importante no que se refere à formação de grupos ou das atividades que demandam a participação de muitas pessoas ou grupos distintos. Trabalhos em grupo são mais difíceis de manter dentro de um critério porque por sua própria natureza, as pessoas não agem de forma coesa. Quando o ingresso em um grupo se dá de uma maneira não questionada os grupos se tornam entidades heterogêneas, abertas a praticamente todas as formas de pensamento. É ótimo que no nível individual as pessoas possuam liberdade de pensamento, mas isso dentro de um grupo descaracteriza todo o trabalho. Grupos deveriam trabalhar por um objetivo claro e para isso a maior homogeneidade possível é impreterível. Por esse motivo, grupos menores tendem a ter ações mais focadas e o trabalho individual bem feito tende a ter qualidade superior ao trabalho realizado em conjunto. Grupos grandes e inchados tendem a ter infiltração de bem-estaristas, o que condena toda e qualquer ação do grupo. Em um grupo menor, com número mais limitado de pessoas, porém, é mais fácil encontrar retidão, coerência, honestidade, bom senso, responsabilidade, capacidade de manter o foco, convicção, clareza, profundidade, características desejáveis em companheiros de atividades.
Onde? - "Onde a ação deve se desenvolver?" A pergunta Onde? tem importância somente após decidida quais ações valem a pena serem tomadas, como deve-se agir e quem será chamado a participar. Ações em locais públicos demandam um questionamento per se, pois os efeitos desejáveis podem ser suprimidos por efeitos indesejáveis que poderiam ser previstos caso houvesse maior critério. Também, é importante que as ações sejam tomadas em locais que de alguma forma tenham relação com os objetivos propostos e cujo público alvo seja capaz de tomar decisões que de fato tenham efeito sobre os objetivos almejados.
Quando? - "Quando ela deve começar?" A pergunta Quando?, igualmente, tem importância somente após realizadas as três primeiras perguntas. Muitas vezes os objetivos são válidos, a forma de agir é compatível com esses objetivos, a escolha do local é a ideal, mas o momento não é o correto. Para que os objetivos sejam atingidos muitas vezes precisamos ter tomados medidas anteriores à ação. Não adianta trabalhar por algo fazendo com que as ações se antecedam aos eventos. As coisas funcionam dentro de determinada ordem e contrariar essa ordem pode significar não atingir o objetivo da ação.
O ativista pode encontrar problemas em agir seguindo esse critério, especialmente quando o convite para tomar parte em ações sem objetivos claros partir de pessoas por quem ele tenha apreço. Mas, certamente, o ativismo pelos direitos animais não deve ser usado como um recurso para fazer ou manter amizades. É bom que do ativismo resultem amizades, mas a verdade dos direitos animais e seus objetivos estão acima disso.
No passado me abstive de dizer para certos "ativistas" que o que eles faziam nada tinha de direitos animais, seja por causa das atividades em si, seja porque seu estilo de vida sequer era compatível com essa ideologia. Não é possível, por exemplo, que uma pessoa se identifique como ativista pelos direitos animais sem que antes tenha adotado um estilo de vida vegano. Veganismo não é o estágio máximo, superior, que o ativista deve atingir após anos de "desenvolvimento espiritual". Veganismo é o estágio inicial, pelo qual ele primeiro realiza a mudança em si mesmo, para então buscar a mudança nos outros. Não devemos tentar ensinar aquilo que nem mesmo nós aprendemos.
No presente encontro-me afastado de muitas pessoas que conheci nessa jornada simplesmente porque disse a verdade. Vislumbrei que não estava no ativismo para fazer amigos, mas para atingir um objetivo. Amigos tenho fora do ativismo, pessoas que comem carne e que declaradamente não estão nem aí para os animais. No ativismo quero trabalhar com pessoas que vivam sua ideologia, e que tenham um estilo de vida compatível com ela. Pessoas que primem pela coerência. Disse certa vez John Kennedy "O segredo do sucesso é não tentar agradar a todo mundo". Se algumas pessoas não suportam a verdade esse é um problema delas.* Creio que no futuro os ativistas não precisarão passar por isso, pois já encontrarão dois movimentos bastante distintos.
E de que forma se dará o ativismo pelos direitos animais do futuro? Feitas as 5 perguntas e adotado a todo momento o pensamento criterioso, creio que o ativismo no futuro não lançará mão de recursos tão diversos dos já adotados atualmente, seja a divulgação de textos, o trabalho junto à mídia, a panfletagem, a organização de protestos, de performances, abaixo-assinados ou mesmo a ação direta. O que não temos hoje e espero que tenhamos no futuro é critério.
Não há nada de inerentemente errado em nenhuma das ações enumeradas acima. O erro está no uso que se tem feito de cada uma delas até o presente momento. A ação em si não tem sentido se ela não almeja um objetivo e se esse objetivo não condiz com os interesses dos animais. Considerando, ainda, que no futuro espera-se que haja um maior aprofundamento e até uma profissionalização do ativista, as ações tenderão a demandar menor gasto de tempo e energia com um maior rendimento nos resultados. Analisemos criticamente, à seguir, algumas dessas formas de atuação:
A divulgação de material é certamente uma ótima forma de atuação porque tem o potencial de educar as pessoas. Educar é, afinal, a melhor forma de atuação dentro do movimento. No entanto, sem critério, podemos estar divulgando material cujo conteúdo pode não condizer com a ideologia que queremos que as pessoas adquiram. Quando recebemos um material é prudente que, antes de repassá-lo, questionemo-nos: "Esse texto é perfeitamente coerente com minhas idéias? A linguagem empregada no texto é adequada? Ela é acessível? O texto é claro? Ele está bem embasado? A argumentação fere algum conceito ético?".
Se o texto for ruim ou mais ou menos, não convém divulgá-lo. Quando as palavras não são colocadas de forma clara e exata e o texto dá margem a mais de uma interpretação, ou quando as palavras parecem ser medidas de modo a evitar tratarem explicitamente de direitos animais, veganismos ou outros temas, apenas porque o autor pode considerar que a população não está preparada para essas idéias, encontramos textos falhos. Textos com conteúdo religioso ou de ideologias diversas aos direitos animais também devem ser evitados. Textos que contenham referências a fatos científicos, como é o caso de nutrição ou fisiologia, devem ser tecnicamente bem embasados. Enfim, a divulgação de textos deve ser criteriosa e apenas textos que atendam a critérios bem específicos devem ser divulgados.
É curioso que no presente sejamos sempre incitados a dar apoio a determinado projeto de lei ou a assinar determinado abaixo-assinado, porque aí se encontra "a salvação dos animais". Mas por que recebemos esse material já engessado, em um texto ruim e que não pode ser alterado? Por que a pessoa que agora te procura buscando teu apoio não te procurou antes, quando da elaboração desse material? Correndo o risco de parecermos mesquinhos, não se trata de orgulho de alguém que não foi consultado anteriormente, mas de alguém que não encontra naquele texto a expressão de suas idéias referentes àquele assunto.
Tendo em mãos um bom material para ser divulgado, cabe decidir a melhor forma de fazê-lo. Enviar textos pela internet é uma forma barata e com potencial de atingir pessoas em lugares distantes, mas mesmo aí é necessário haver critério. Se eu recebesse, digamos, textos com conteúdo evangélico em minha caixa de mensagens, além de não lê-los eu possivelmente pegaria birra de quem me enviou. Não tendo interesse pelo assunto não quero receber material com esse conteúdo. Simplesmente enviar material referente a direitos animais para pessoas que simplesmente não se interessam pelo assunto não as fará interessarem-se. Poderá, quanto muito, fazê-las adquirir aversão pelo assunto.
Outra forma de divulgar mensagens é através de panfletos. É providencial ter em mãos panfletos com bom conteúdo, para entregar às pessoas que por algum motivo se interessam pelo assunto e que querem saber mais. Panfletos são uma extensão da abordagem, trazem referências para que o assunto não morra ali, tenha uma continuidade. Bons panfletos trazem links para boas entidades; mais tarde a pessoa interessada pode buscar outras informações na internet.
Mas a panfletagem por si só, o ato vazio de entregar um panfleto para um pedestre na rua, ou para um motorista parado em um farol, não tem qualquer razão de ser. Quando recebo um panfleto na rua descarto sem ler. Ele vai parar na primeira lixeira ou no cestinho do carro. Pedestres que não tem tempo para conversar com você não terão tempo nem interesse de ler um panfleto que receberam na rua. Panfletos assim desperdiçados são recursos da entidade jogados fora, é lixo gerado, e não tem potencial de produzir os efeitos desejados.
Atividades como protestos e performances também precisam ser realizados de maneira bastante criteriosa. Precisamos a todo o momento questionar se com tais manifestações atingiremos algum objetivo. Particularmente assisto a protestos praticados por outros movimentos e não posso entender quais sejam suas exigências. Sei que uns são sem-terra, outros são estudantes de esquerda... mas o que eles realmente estão reivindicando? E se entendo a reivindicação, não entendo de que forma que o protesto pode ajudar. A quem ele é dirigido? Essa pessoa tem poder para cumprir com essas exigências? Se não há resposta para essas perguntas, o protesto ou a performance não fazem sentido.
Os protestos e performances em si não nos educam e, se chamam nossa atenção, nem sempre isso é feito de uma maneira positiva. Invariavelmente protestos significam pessoas segurando faixas e cartazes, e gritando palavras de ordem. Apenas quem está "puxando" o protesto tem voz, o restante é massa de manobra e não necessariamente está familiarizado com a situação. Há um lado hipócrita dos protestos, porque seu objetivo é juntar o máximo de pessoas possível, não importa qual seja sua ideologia.
Um protesto pode, inclusive, ser constituído por uma maioria que sequer pratica aquilo que está exigindo dos outros. Um protesto pelos direitos animais pode ser realizado por um grupo de pessoas cuja maioria não seja vegetariana. Um protesto pelo fim da experimentação animal pode ser promovido por pessoas que utilizam produtos testados em animais. Atividades que reúnem grande número de pessoas nem sempre são honestas e esse é um ponto importante a considerar.
Outro ponto importante é a possível antipatia que essa atividade pode gerar nas pessoas. Possivelmente uma pessoa que não pôde chegar em casa na hora desejada porque havia determinada atividade atrapalhando o trânsito não verá com bons olhos a mensagem desse grupo. Uma performance que faça uso de nudez ou que simule intercurso sexual pode não agradar a muitas pessoas, além de gerar o questionamento de como pode um grupo que combate o especismo fazer uso de recursos sexistas para levar adiante sua mensagem. E mesmo que a performance não faça uso desses recursos cabe o questionamento. É uma performance de bom gosto? As pessoas que a assistem entendem a mensagem?
Entendo que ter uma boa relação com a mídia é primordial para o futuro do movimento. Possivelmente no futuro os ativistas contarão com um corpo de especialistas nos diversos assuntos pertinentes aos direitos animais, prontos para fornecer opiniões sobre os diferentes assuntos. O ativismo contará também com uma efetiva assessoria de imprensa. Estar na mídia é importante, mas apenas quando a mensagem a ser transmitida é clara e está livre de distorções. No presente prevalece a idéia de que estar na mídia a qualquer custo é algo vantajoso. Isso está errado. Se for para aparecer em uma situação de ridicularização, ou transmitindo uma mensagem que não condiz com a ideologia, é melhor não estar na mídia.
Igualmente, as ações diretas, tão valorizadas por uns, tão depreciadas por outros, na verdade podem ser consideradas válidas desde que obedecendo a determinados critérios. As ações que se confundem com vandalismo, terrorismo, violência, etc. devem ser combatidas, não porque aqueles que sofrem essas ações mereçam alguma consideração, mas porque a impressão de que determinado grupo pratica violência tem efeito negativo sobre a população. Nós somos a forma como os outros nos vêem. Se educação é a principal bandeira do movimento, convém que as pessoas sintam simpatia pelo mesmo. Invadir um laboratório e dele retirar animais pode gerar simpatia ou antipatia, depende da forma como isso será feito.
Outro problema relacionado à ação direta é o possível destino que poderá ser dado aos animais. Em um determinado momento um grupo bem intencionado de jovens ativistas poderão ter em mãos centenas de cães, gatos, coelhos, furões, macacos, chinchilas, ou seja qual for a espécie animal. O que fazer com esses animais? É óbvio que quase qualquer coisa é melhor do que um laboratório ou uma fazenda de pele, mas simplesmente soltar animais em um ambiente selvagem não é algo bom de se fazer, primeiramente porque não sendo aquele o ecossistema ao qual o animal pertence e tendo esses animais passado suas vidas em cativeiro, suas chances de sobrevivência são mínimas. Em segundo lugar a introdução de espécies estranhas ao ambiente gerará impactos sobre as espécies ali presentes.
Um terceiro problema relacionado à ação direta é que o senso de justiça dos ativistas não condiz com o senso de justiça da polícia. O que uns podem ver como libertação, para outros significa vandalismo, invasão e roubo de propriedade. Ativistas podem ser presos praticando ação direta e precisamos de ativistas do lado de fora das prisões. As ações diretas não devem ser totalmente condenadas, mas menos ainda devem ser encorajadas. Os ativistas são mais úteis aos animais desenvolvendo outras atividades do que se envolvendo com ações diretas.
Enfim, de uma maneira geral, o que difere o ativismo do presente e o ativismo do futuro é que no futuro os ativistas terão mais senso crítico. No futuro as ações serão melhor planejadas, e por isso serão mais efetivas, com menor gasto de tempo e energia. No futuro haverá ativistas especialistas em diferentes assuntos. Haverá materiais de qualidade cobrindo os mais diferentes assuntos, o que evitará que continue a se proliferar a falta de informação e o ‘achismo'. Acima de tudo, o ativismo no futuro se desvencilhará do estigma de atividade de gente desocupada, de gente radical, de gente relacionada ao esoterismo ou hippies. Assumida uma postura mais séria e com uma mensagem mais clara, haverá maior respeito da população e da mídia.
(* meus grifos)
Sobre o autor:
Sergio Greif: Biólogo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutrição com tese em nutrição vegetariana pela mesma universidade, ativista pelos direitos animais.
Co-autor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável", além de diversos artigos e ensaios referentes à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, à bioética, à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação e aos impactos da pecuária ao meio ambiente, entre outros temas.
Membro fundador da Sociedade Vegana.
segunda-feira, 12 de março de 2012
O que nos querem dizer quando falam em abate humanitário? - por Sergio Greif
Em se tratando de falsificação da Verdade e desprezo pela Ética, nada mais triste do que o conceito de "abate humanitário".
Faço esta postagem hoje como uma espécie de recadinho à WSPA Brasil e aos bem estaristas de plantão no Brasil.
Que, aliás, continua BEM QUIETINHA no que diz respeito à exportação de animais VIVOS pelo Brasil e no caso da tragédia anunciada dos JEGUES brasileiros.
"Abate Humanitário"???????????????????
DESAFIO vindo de um cineasta francês: OLHE nos olhos desta VAQUINHA durante o o ABATE para chegar à sua mesa. Espero honestamente que quem argumenta em termos de "cadeia alimentar", ignorando a OPÇÃO que o homem TEM, ao contrário dos animais selvagens, sinta-se suficientemente mal e que repense sua relação com aquilo que ainda considera sua "comida" por direito divino (?!).
O que nos querem dizer quando falam em abate humanitário?
De acordo com certa definição, abate humanitário é o conjunto de procedimentos que garantem o bem-estar dos animais que serão abatidos, desde o embarque na propriedade rural até a operação de sangria no matadouro-frigorífico.
Humanitário . . . bem-estar . . . palavras muito fortes e que não refletem o que realmente querem dizer. Termos como “humanitário” e “bem-estar” deveriam ser aplicados apenas nos casos em que buscamos o bem do indivíduo, e não para as situações em que procuramos matá-lo de alguma forma.
Quando enviamos ajuda humanitária à Africa não estamos enviando recursos para que os africanos possam se matar de uma forma mais rápida e menos dolorosa. Não estamos pensando: “Bem, aquele continente vive na miséria, cheio de fome, doenças e guerras, vamos resolver isso matando-os”. Ajuda humanitária significa alimentos, água, remédios, cobertores . . . intervenções realmente em benefício daqueles indivíduos.
Quando falamos em bem-estar social, bem-estar do idoso, bem-estar da criança, não estamos pensando em outra coisa senão proporcionar o bem a essas pessoas. Jamais pensamos em métodos de matá-los com menos sofrimento, porque isso seria o contrário de bem-estar, seria o contrário do que consideramos humanitário.
Por isso, quando escutamos alguém falar em “abate humanitário”, isso soa como um contra senso. A primeira palavra representa algo que vai contra os interesses do indivíduo e a segunda encerra um significado que atende aos seus interesses. Igualmente, a idéia de “bem-estar de animais de produção” é um contra senso, pois a preocupação com o bem-estar implica em preocupar-se com a vida, e não visar sua morte ou exploração de alguma forma.
Essas duas idéias - abate e humanitário - só se harmonizam quando a morte do animal atende aos seus próprios interesses, como no caso em que o animal padece de uma enfermidade grave e incurável e a continuidade de sua vida representa um sofrimento. Nesses casos, a eutanásia, dar fim a uma vida seguindo uma técnica menos dolorosa, pode ser classificada como humanitária, e uma preocupação com o bem-estar.
As organizações e campanhas que pregam pelo abate humanitário alegam que esse é um modo de evitar o sofrimento desnecessário dos animais que precisam ser abatidos. Mas o que é o “sofrimento necessário” e o que diz que animais “precisam ser abatidos”?
O abate de animais para consumo não é, de forma alguma, uma necessidade. As pessoas podem até comer carne porque querem, porque gostam ou porque sentem ser necessário, mas ninguém pode alegar que isso seja uma necessidade orgânica do ser humano.
Porém, se comer carne é hoje uma opção, não comê-la também o é. Se uma pessoa sinceramente sente que animais não devem sofrer para servir de alimento para os seres humanos, seria mais lógico que essa pessoa adotasse o vegetarianismo, ao invés de ficar inventando subterfúgios para continuar comendo animais sob a alegação de que esses não sofreram.
A insensibilização que antecede o abate não assegura que o processo todo seja livre de crueldades, especialmente porque o sofrimento não pode ser quantificado com base em contusões e mugidos de dor. Qualquer que seja o método, os animais perdem a vida e isso por si só já é cruel.
Caso todo o problema inerente ao abate de uma criatura sensível se resumisse à dor perceptível, matar um ser humano por essa mesma técnica não deveria ser considerado um crime. Caso o conceito de abate humanitário fizesse sentido, atordoar um ser humano com uma marretada na cabeça antes de sangrá-lo e desmembrá-lo não seria um crime, menos ainda matá-lo com um tiro certeiro na cabeça.
Está claro que a idéia de abate humanitário não cabe, e nem atende aos interesses dos animais. Mas se não atende aos interesses dos animais, ao interesse de quem ele atende?
A questão é bastante complexa, porque envolve ideologias, forças do mercado, psicologia do consumidor e política, entre outros assuntos. O conceito de abate humanitário atende aos interesses de diferentes grupos (pecuaristas, grupos auto-intitulados “protetores de animais”, políticos, etc.) não necessariamente integrados entre si.
Pecuaristas tem interesse no chamado abate humanitário porque ele não implica em gastos para o produtor, mas investimentos que se revertem em lucros. A carne de animais abatidos “humanitariamente” tem um valor agregado. O consumidor paga um preço diferenciado por acreditar que está consumindo um produto diferenciado. Possuir um selo de “humanidade” em sua carne significa acesso a mercados mais exigentes, como o europeu. Além disso, verificou-se cientificamente que o manejo menos truculento dos animais reflete positivamente na qualidade do produto final, portanto, mudanças nesse manejo atendem aos interesses do pecuarista pois melhoram a produção e agregam ao produto.
Os chamados protetores de animais tem interesses no abate humanitário, mas não porque este é condizente com o interesse dos animais. Em verdade esses “protetores“ não se preocupam com animais, talvez sim com cães e gatos, mas não com animais ditos “de produção”. Esses “protetores de animais” não os protegem, eles os criam, depois os matam e depois os comem. Eles podem não criá-los nem matá-los, mas certamente os comem e mesmo quando não o fazem por algum motivo, não se opõe a que outros o façam.
“Protetores de animais” lucram com o conceito de abate humanitário, pois isso lhes rende a possibilidade de fazerem parte do mercado. Há entidades de “proteção” animal que se especializaram em matar animais. Sob a pretensão de estarem ajudando aos animais, elas mantém fazendas-modelo onde pecuaristas podem aprender de que forma melhorar sua produção de carne, leite e ovos e de que forma matar animais de uma maneira mais aceitável pelo ponto de vista do consumidor comum. Podem também lucrar servindo como consultores em frigoríficos.
Simultaneamente, essas entidades fazem propaganda no sentido de convencer o consumidor de que todo o problema relacionado ao consumo de carne encontra-se na procedência da carne, na forma como os animais são mortos, e não no fato de que eles são mortos em si. A fórmula é muito bem sucedida, pois essas entidades acabam gozando de bom prestígio entre pecuaristas e consumidores comuns, não se opondo a quase ninguém. Políticos vêem na aliança com essas entidades a certeza de reeleição, e por isso elas contam também com seu apoio.
Exercendo seu poder para educar as pessoas ao “consumo responsável” de carne, essas entidades não pedem que as pessoas façam nada diferente do que já faziam. Elas não propõe uma mudança de fato em favor dos animais, pois os padrões de consumo da população mantêm-se os mesmos e os animais continuam a ser explorados. A diferença está no fato de que essas campanhas colocam a entidade em evidência. A entidade se promove, deixando a impressão de que ela faz algo de realmente importante em nome de uma boa causa. Dessa forma as pessoas realizam doações e manifestam seu apoio, ainda que sem saberem ao certo o que estão apoiando.
Com a carne abatida de forma “humanitária”, o consumidor se sente mais a vontade para continuar consumindo carne, pois o incômodo gerado pela idéia de que é errado matar animais para comer é encoberta pela idéia de que, naqueles casos, os animais não sofreram para morrer. E o pecuarista lucra mais porque pode cobrar um preço maior por seus produtos, bem como colocar seus produtos em mercados mais exigentes.
De toda forma, os interesses desses grupos não coincide com os interesses dos animais, e por esse motivo não faz sentido que esses grupos utilizem nomenclaturas tais como como 'bem-estar' e 'humanitário', que podem vir a dar essa impressão.
Entidades que promovem o abate humanitário não protegem animais, mas sim promovem sua exploração. Elas estão alinhadas com os setores produtivos, que exploram os animais e não com os animais. Se elas protegessem animais trabalhariam pelo melhor de seus interesses. Seriam eles mesmos vegetarianos e não consumidores de carne. No entanto, adotando sua postura e sua retórica, não desagradam a praticamente ninguém, e dessa maneira enriquecem e ganham influência.
Entidades que realmente promovem o bem dos animais se esforçam em ensinar às pessoas que animais jamais devem ser usados para atender às nossas vontades. Elas devem se posicionar de forma clara a mostrar que comer animais não é uma opção ética, e que não importa que métodos utilizemos de criação e abate, isso não mudará a realidade de que animais não são produtos e que o problema de sua exploração não se limita à forma como o fazemos.
Ainda que uma campanha pelo vegetarianismo provavelmente conte com menos popularidade e menor adesão da população, até porque isso demanda uma mudança verdadeira na vida das pessoas, certamente uma campanha nesse sentido atende ao interesse real dos animais.
Ainda que reconhecendo que abater animais com menos crueldade é menos ruim do que abatê-los com mais crueldade, repudiamos que o abate que envolve menor crueldade seja objeto de incentivo. Eles não deveriam ser incentivados, premiados, promovidos ou elogiados, porque um pouco menos cruel não é sinônimo de sem crueldade, e só porque é um pouco mais controlado não quer dizer que é certo ou correto.
Sobre o autor:
Sérgio Greif - Biólogo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutrição com tese em nutrição vegetariana pela mesma universidade,ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas ações civis publicas e audiências públicas em defesa dos direitos animais.
Co-autor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável", além de diversos artigos e ensaios referentes à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, à bioética, à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação e aos impactos da pecuária ao meio ambiente, entre outros temas.
Membro fundador da Sociedade Vegana.
sábado, 10 de março de 2012
VERGONHAS BRASILEIRAS da semana - GENOCÍDIO altamente lucrativo?
O Brasil (leia-se os "comandantes" do Brasil) esta semana se superou em barbaridade e despropósitos. Dois ESCÂNDALOS varreram o mundo, enquanto a midia nacional ficava bem quietinha ....
O primeiro deles refere-se à MORTE LENTA em alto-mar de um "carregamento" de boizinhos que partiu da Amazônia para o abate no Oriente Médio, hoje denunciado internacionalmente como o tipo mais BÁRBARO, CRUEL e ODIOSO de que o mundo tem notícia.
Lá os animais são mantidos conscientes e são degolados uns em frente aos outros, impiedosamente.
Não que eu considere qualquer tipo de abate aceitável. Muito pelo contrário.
Mas, além do HORROR que experimentam em seus momentos finais, os animais transportados VIVOS por longas distâncias, em navios, estão sujeitos a um grande TERROR adicional: o transporte em condições absolutamente INDIGNAS e REPULSIVAS: aglomerados, sem água e sujeitos a todo tipo de indignidade, muitos morrem já no trajeto, depois de um grande e lento sofrimento.
Pois bem: foi exatamente ISSO o que aconteceu com cerca de 3 MIL boizinhos embarcados no navio egípcio Gracia del Mar.
Os demais ficaram DIAS entregues à própria sorte, cercados dos corpos em putrefação de seus companheiros no NAVIO da MORTE. Uma forte tempestade parece ter provocado danos ao navio,provocando avarias em seu sistema de ventilação.
Antes disto, o sofrimento já era IMENSO, com baixíssimas temperaturas. Esta combinação de fatores resultou na morte rápida de cerca de 3 mil animais.
Os demais foram abandonados à própria sorte, já que nenhum porto se dispunha a recebê-los, pelo medo de contaminação em função dos animais em putrefação.
Foram dias e dias de HORROR para os animais sobreviventes.
NEM UMA ÚNICA LINHA sobre isto foi publicada na imprensa brasileira.
Enquanto isso, o caso foi notícia e ESCÃNDALO em todo mundo. AQUI não se disse uma palavra sobre a tragédia.
http://www.examiner.com/sustainable-living-in-new-york/doomed-cattle-ship-not-allowed-to-dock-on-red-sea
http://www.farmersguardian.com/home/latest-news/thousands-of-cattle-dying-at-sea/45326.article
http://egyptunbound.blogspot.com/2012/03/cattle-dying-in-egypts-suez-canal.html
http://www.ciwf.org.uk/news/transport_of_live_animals/dying_cattle_stranded_on_red_sea_ship.aspx
http://newscliptv.com/hot/dyingcattle.html
O MÁXIMO que tivemos foi uma nota OMISSA, OFENSIVA, DISTORCIDA e PARCIAL:
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1057741-bois-que-seriam-exportados-para-o-egito-morrem-em-navio.shtml
Foi necessária a intervenção de uma ONG do Reino Unido, a Compassion in World Farming, para que o fato chegasse ao conhecimento dos brasileiros. Esta sim, mobilizou-se e iniciou rapidamente uma campanha pela intervenção das autoridades brasileiras. Sem respostas.
A intervenção da Compassionate in World Farming permitiu, depois de mais de 40 mil e-mails de cidadãos de todo o mundo, que os animais restantes fossem finalmente desembarcados.
Entretanto, infelizmente, não se conseguiu até aqui qualquer informação acerca de para onde terão sido encaminhados.
Ou seja, não se sabe que tipo de VIAGEM & MORTE SANGRENTA enfrentarão ainda pela frente.
Depois desta tragédia, em que os animais sobreviventes ficaram sem socorro, por dia, enquanto os países se recusavam a desembarcá-los ou a lhes oferecer qualquer tipo de atendimento veterinário mínimo, foi criada uma petição internacional dirigida à World Organisation for Animal Health (OIE), para que isto NUNCA MAIS volte a acontecer. Por favor, assinem e compartilhem, em caráter de URGÊNCIA a petição neste sentido da PETA UK, que se dispôs a fazer o que as grandes ongs brasileiras teriam tido o DEVER de FAZER!
http://action.peta.org.uk/ea-action/action?ea.client.id=5&ea.campaign.id=14276&ea.tracking.id=pukaeadv&forwarded=true
Como mulher e como brasileira, senti-me ENVERGONHADA.
E transtornada, por empatia, ao sequer tentar imaginar pelo que passaram estes pobres animais. Este é o DESTINO dos animais exportados VIVOS para o exterior.
Seja pelo Brasil, seja pela Austrália, seja por que país for.
Esta "indústria" CRIMINOSA é responsável pelo SOFRIMENTO MÁXIMO de milhares de seres sencientes que, ou MORREM de EXAUSTÃO, SEDE, TERROR, CALOR ou pela AGLOMERAÇÂO ainda dentro do navio, OU São ABATIDOS das formas mais VIS de que se possa ter notícia.
ISTO __ o embarque de seres vivos para a MORTE no Oriente __ tem causado ESCÂNDALO em todo o mundo.
Populações, conselhos de veterinários mundo afora se reúnem para tentar IMPEDIR que este HOLOCAUSTO, "muito lucrativo" para uma meia dúzia de empresários-genocidas, prossiga.
http://legalaction4animalrights.net/2012/03/05/veterinarians-form-new-group-opposing-live-export/
POIS BEM: o HORROR da SEMANA não se encerrou aí.
Não bastasse o que JÁ ACONTECE aqui no Brasil, com a exportação de boizinhos VIVOS para o Oriente __ inovação recente nas "artes negras" do HOLOCAUSTO ANIMAL __ agora o atual governo e seus associados pretende fomentar a CHACINA dos JEGUES do nordeste, "uma vez que foram substituídos por motocicletas" (japonesas).
Foi NESTES TERMOS que a imprensa divulgou o "acordo em andamento":
http://oglobo.globo.com/economia/jumento-tipo-exportacao-4235052
VIDAS, e não "coisas"
ANIMAIS, e não "gado"
Animais não são mercadoria, não são sintéticos e não são "comida".
E não "brotam" em pedaços para ser embalados. Ou, se suficientemente bem "embalados", chegam ilesos ao destino final de transporte.
O que se vê embalado nos supermercados são pedaços esquartejados de seus corpos, um dia VIVOS e com sangue correndo pelas veias.
Capazes de sentir,. dor, medo, amor, e apego à VIDA e a seus filhos, tanto quanto nós.
E MAIS: ainda que alguns duvidem, vacas, bois, galinhas, porquinhos, perus, patos, carneirinhos, jegues, são ANIMAIS, tanto quanto cães, gatos, cavalos, macacos e humanos.
Mesmo que os bem estaristas digam o oposto, já que servem aos interesses dos humanos e não ao dos animais..
Como um dia alguém disse, "não como nada que tenho olhos".
E outro disse: "não como nada que tenha filhos".
Digo eu: não como meus irmãos menores da Criação.
Lamentavelmente, em certos momentos não há como deixar de ser CLARO e nos referirmos aos "parâmetros" que o atual governo exercita.
Despudorados, impiedosos, anti éticos e , porque não, dizer, INDECENTES.
Tudo em nome do "progresso" e do lucro. De muito poucos. Os de sempre: ruralistas, pecuaristas e mineradores.
EM DETRIMENTO da VIDA e da HONRA de uma nação.
LUTAR pelos direitos dos animais é ASSUMIR uma posição.
Infelizmente contrária à tendência dominante (política e social).
Sem MEDO de EXPOR FATOS.
Não "impressões" vagas ou preferências. POSIÇÔES ÉTICAS. VALORES.
Embora em desuso, por não serem "lucrativos", VALORES EXISTEM enquanto uma sociedade ainda merecer este nome.
Este é o único motivo pelo qual provavelmente sempre estaremos na contramão da MAIORIA, tornada apática ou comprada pela falsa ótica difundida pela mídia do Brasil.
Que aliás, mostrou-se INCAPAZ de se referir à TRAGÉDIA em alto mar no navio egípcio e cujas referências quase elogiosas ao novo "negócio" relativos aos jegues são de fazer VOMITAR qualquer indivíduo ainda consciente e de plena posse de suas faculdades morais e mentais.
Como diria Darcy Ribeiro, com certeza é melhor LUTAR e perder nestas batalhas, já que seria terrível estar junto dos chamados "vencedores" que promovem estes crimes legalmente sancionados e compartilhados pelo poder público atualmente dirigindo este triste país.
Em minhas mãos não está o sangue da floresta, dos índios, ou dos animais.
E sobre a minha consciência não pesa o TERROR que hoje vigora.
Norah André
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